“Relapso.” “Preguiçoso.” “Se esforçasse um pouco mais, dava conta.” Quem tem TDAH carrega, muitas vezes desde a infância, um repertório inteiro de rótulos assim. E o problema não é só ouvir isso dos outros. Depois de anos, a própria pessoa passa a repetir essas frases internamente, quase em automático, toda vez que alguma coisa não sai como planejado.
Como esse ciclo se forma
Existe um padrão bem descrito por trás disso, e vale entender a lógica completa, porque ela explica por que “só se esforçar mais” nunca resolveu.
Tudo começa numa dificuldade real de funcionamento, não escolhida, não fruto de preguiça: dificuldade de organização, de sustentar atenção, de terminar o que foi começado. Isso gera, com o tempo, um histórico de tarefas malfeitas, prazos perdidos, promessas não cumpridas, mesmo com boa intenção genuína em cada uma delas.
Esse histórico repetido de “não deu certo de novo” vai construindo, aos poucos, uma crença sobre si mesmo: “eu sou desorganizado por natureza”, “eu não sou confiável”, “eu estrago tudo que tento”. E aqui está o ponto central: essa crença não fica guardada, ela passa a colorir a forma como a pessoa encara qualquer tarefa nova, antes mesmo de começar.
Diante de uma tarefa nova, o pensamento automático já vem carregado dessa crença: “vou estragar isso também, então para que tentar”. E esse pensamento, por si só, aumenta a evitação, o que aumenta a chance real de a tarefa não ser concluída, o que confirma a crença original, fechando o ciclo.
Por que isso não se resolve com “mais disciplina”
Cobrar disciplina de alguém preso nesse ciclo ataca o ponto errado. A dificuldade original de organização e atenção continua lá, intocada, e agora ainda tem uma camada extra de autocrítica pesando em cima, o que só aumenta a chance de evitação. É como tentar consertar um carro com pneu furado apertando mais o parafuso do motor.
Quem convive com isso costuma ouvir variações do mesmo conselho: “usa uma agenda”, “faz uma lista”, “acorda mais cedo”. O conselho não é absurdo em si, mas ignora que a pessoa provavelmente já tentou tudo isso, várias vezes, e que o que travou não foi falta de ferramenta. Foi o peso de acreditar, antes mesmo de abrir a agenda, que dessa vez também não vai funcionar.
Como se trabalha esse ciclo na prática
O primeiro passo é simplesmente aprender a notar o pensamento automático no momento em que ele aparece, algo como “não vou dar conta disso”, sem julgar o pensamento, só percebendo que ele está ali, geralmente disparado antes mesmo de a tarefa começar de verdade.
O segundo passo é examinar esse pensamento com mais distância: ele é um fato comprovado, ou é uma previsão baseada em experiências antigas que nem sempre se aplicam à situação de agora? Muitas vezes existe uma explicação mais precisa e menos pesada do que a primeira interpretação automática, algo como “essa tarefa é grande e eu ainda não a quebrei em passos menores”, que é bem diferente de “eu sou incapaz”.
O terceiro passo é praticar reagir de um jeito diferente daquele automático, mesmo com o desconforto presente, e colher a experiência real disso, porque só repetição de evidência nova, ao longo do tempo, consegue enfraquecer uma crença construída ao longo de anos.
“Pensar positivo” não é o ponto aqui. O trabalho é corrigir uma distorção que se formou de um jeito compreensível, mas que hoje atrapalha mais do que ajuda.
Um convite
Se você reconhece essa voz interna que já chega antes de você nem ter começado a tentar, vale saber que ela tem uma origem, e essa origem não é “eu sou assim mesmo”. É um padrão que se formou, e padrões formados podem ser trabalhados. Atendo adultos, presencialmente em Rondonópolis/MT e também online. Se desejar, entre em contato que conversamos sobre o seu caso.
Camila Krauspenhar | Psicóloga CRP 18/2316
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